Livro de Eduardo Matos de Alencar é referência para a compreensão do sistema prisional no Brasil.
Eduardo Matos de Alencar, em De quem é o comando?, realiza uma investigação profunda sobre a dinâmica do Complexo do Curado, em Recife, revelando um sistema prisional brasileiro marcado pelo improviso e pela ausência de controle efetivo do Estado. Durante dois anos de pesquisa de campo, ele desmonta noções simplistas sobre o domínio das grandes facções criminosas e expõe um ambiente onde o poder se fragmenta em pequenos núcleos de influência, gerenciados por detentos conhecidos como “chaveiros”.
O estudo revela que o Curado não segue um modelo tradicional de domínio de facções como o PCC e o Comando Vermelho. Em vez disso, a prisão funciona por meio de uma complexa rede de negociações entre internos e agentes estatais, onde a aplicação seletiva da lei se torna moeda de troca. A precariedade das normas e a corrupção institucionalizada favorecem um mercado interno de bens e serviços ilícitos, permitindo um paradoxo: um sistema caótico, mas funcional.
Outro ponto crucial é a informação como ferramenta de poder. A falta de investigação policial e de previsibilidade jurídica transforma o acesso a dados e a comunicação – especialmente via celulares – em instrumentos fundamentais para a governança dentro e fora das prisões. O crime organizado se fortalece justamente na ausência de regulação clara.
Por fim, Alencar argumenta que o Curado precisa ser desativado, não apenas por sua superlotação e insalubridade, mas porque simboliza a falência do modelo prisional brasileiro. Mais do que defender mantras ideológicos, o autor evidencia que sem uma real restauração da autoridade estatal, a administração do caos seguirá como a única regra nos presídios do país.