Com 1.046 participantes, 56 palestrantes e 300 trabalhos científicos, o Fórum Internacional de Ciências Policiais consolidou em Curitiba o encontro entre polícia, universidade, empresa e governo — e mostrou que segurança pública se faz com método, dado e evidência.
Durante dois dias, o Auditório Mário Schoemberger, na UNESPAR, foi provavelmente o lugar do Brasil onde mais se discutiu, com rigor, o que a ciência tem a dizer sobre a atividade policial. Nos dias 23 e 24 de julho de 2026, o III Fórum Internacional de Ciências Policiais — FICP Paraná 2026 reuniu peritos, delegados, oficiais, policiais penais, bombeiros militares, guardas municipais, pesquisadores, estudantes, magistrados, empresários e gestores públicos em torno de um tema que dá o tom da nova fronteira do campo: Ciências Forenses e Segurança Pública Baseada em Evidências.
Organizado pelo Instituto Arrecife, com realização da Universidade Estadual do Paraná e apoio institucional do Governo do Estado do Paraná — por meio da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETI) e da Secretaria da Segurança Pública (SESP) —, o FICP chegou à sua terceira edição depois de Rio de Janeiro (2024) e Salvador (2025). E chegou diferente: pela primeira vez, o Fórum foi sediado em uma universidade pública e integrou, na mesma programação, dois outros eventos — o I Encontro Paranaense de Ciências Forenses e o II Seminário de Gestão em Segurança Pública do Paraná, vinculado ao Programa de Residência Técnica e Pós-Graduação em Gestão da Segurança Pública (RESTEC-GESP).
O resultado dessa arquitetura foi um complexo de eventos que operou em cinco ambientes simultâneos e produziu, em 48 horas, um volume de conhecimento aplicado que poucas iniciativas do setor conseguem reunir.
Uma conferência que abriu caminho
A conferência de abertura coube a Daniel J. Wescott, diretor do Forensic Anthropology Center da Texas State University — um dos centros de referência mundial em antropologia forense. Sua exposição sobre a relação entre Antropologia Forense e Policiamento Baseado em Evidências deu ao Fórum o seu eixo intelectual: a prova técnica não é um apêndice da investigação, é o que separa a decisão fundamentada da intuição.
Wescott voltou ao palco na primeira mesa do evento, ao lado da antropóloga biológica Deborah Cunningham, também da Texas State University, em diálogo direto com peritos da Polícia Científica do Paraná. Foi um dos momentos mais representativos do que o FICP se propõe a fazer: colocar a produção científica internacional na mesma mesa que a prática pericial brasileira, sem hierarquia entre elas.
A riqueza que veio para o Paraná
As nove mesas do auditório e os cinco painéis da Arena do Conhecimento formaram um mosaico raro de competências.
Em ciências forenses e prova técnica, peritos da Polícia Científica do Paraná — Hemerson Bertassoni Alves, Alexandre Lara, Luis Henrique Ferreira de Moraes e Evandro Lustre — dividiram espaço com pesquisadores e com a delegada Camila Cecconello, da Polícia Civil do Paraná.
Em fraudes e falsificações, duas mesas trataram do tema pela via econômica e pela via química. Luciano Stremel Barros, presidente do IDESF, e o advogado Rodrigo Gianni Carney mapearam a economia circular do mercado ilegal. Na sequência, Caroline Gabriel Mendes, diretora de investigações da Pfizer para as Américas, e Regina Zamith, diretora de Brand Protection da Johnson & Johnson para a América Latina, abriram os bastidores do combate ao mercado de medicamentos ilegais — uma conversa que dificilmente acontece fora de um espaço como este.
Em cibersegurança e crimes digitais, Raphael Parreira e Weslley Shaimon, das áreas de inteligência e investigação do Banco Santander Brasil, trouxeram a perspectiva de quem enfrenta o crime cibernético em escala industrial.
Em crime organizado, o capitão Marcos Verardino, da ROTA/PMSP, o policial penal Yuri Lopes, da SEAP-BA, e o perito da Polícia Federal Rogério Dourado, superintendente de Inteligência da SSP-BA, discutiram expansão faccional, simbologia criminal e inteligência aplicada.
Em grandes desastres, o painel reuniu o comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Paraná, coronel Antônio Geraldo Hiller Lino; a perita Thaís Xavier, da Comissão Permanente de Identificação de Vítimas de Desastres (DVI); e o neurocientista Renato Rozental, professor da UFRJ e pesquisador da FIOCRUZ, com vinte anos de trajetória no Albert Einstein Hospital de Nova Iorque e especialização em medicina de catástrofe.
Em governança policial e integração das guardas municipais, o coronel Carlos Alberto Araújo Gomes, secretário de Segurança Pública de Balneário Camboriú, o comandante da Guarda Municipal de Curitiba José Carlos Felipus Costa e o consultor legislativo do Senado Federal Rafael Erthal Corrêa de Sá discutiram um dos temas mais sensíveis da agenda federativa da segurança.
Em armamento e tiro, a equipe do Instituto Arrecife, composta por Sávio Glória Pontes, André Villar e Carlos Jenné, apresentaram brevemente o andamento das pesquisas sobre afundamento de mola nas pistolas. Em seguida o coronel Paulo Cezar Gomes Carrilho, diretor de operações do Organismo de Certificação de Produto da ABIMDE. A abertura do espaço ficou por conta de Bruno Costa, da N Engenharia, pessoa fundamental para o FICP 2026, e uma das mentes mais inovadoras no país em instrumento para treinamento policial.
Em formação e capacitação policial, pesquisa e prática se encontraram com Anderson Caetano Paulo (UTFPR/USP), o major Leonardo Novo (PMERJ e SESP-RJ e o coronel Dalton Gean Perovano (PMPR/FUNDASEG).
E em pesquisas e tecnologias, Marcos Dias de Paula (FIRJAN SENAI SESI), Renata Monteiro (SENAI CETIQT) e o engenheiro Bruno Costa (N Engenharia) apresentaram o que a indústria de defesa e segurança tem desenvolvido para o setor.
Somaram-se a esses os painéis sobre delinquência juvenil e prevenção à violência, com a tenente-coronel Bianca Machado Pereira (SECTI-RJ) e o economista Pery Shikida (UNIOESTE), e sobre domínio de cidades, com Samir de Oliveira Rodrigues, autor do relatório Plano de Defesa, publicado pelo Instituto Arrecife. No térreo, a oficina contínua de APH Tático, conduzida pelo Comitê Brasileiro de APH em Combate, formou duas turmas com certificação específica.
O peso da produção científica
Se a programação foi rica, o volume de ciência apresentado foi o dado mais expressivo da edição. Foram 300 trabalhos científicos distribuídos em três frentes:
| Frente | Trabalhos |
| II Seminário de Gestão em Segurança Pública do Paraná (RESTEC-GESP) | 281 |
| I Encontro Paranaense de Ciências Forenses | 13 |
| Seminário de Pesquisa do FICP | 6 |
| Total | 300 |
Os 281 trabalhos do RESTEC-GESP foram apresentados em quatro sessões de pôsteres por residentes técnicos e servidores estaduais que concluíram a especialização ofertada pela UNESPAR. A distribuição revela a capilaridade do programa: 136 trabalhos vieram de residentes da Polícia Penal do Paraná, 47 da Polícia Científica, 27 da Polícia Militar, 25 da Polícia Civil, 23 da SESP, 19 do Corpo de Bombeiros Militar e 4 do CEPED/UNESPAR.
Os temas percorrem toda a extensão do campo — saúde ocupacional e saúde mental dos profissionais de segurança, enfrentamento à violência doméstica e de gênero, monitoração eletrônica, educação e trabalho no sistema penal, gestão pública e governança de tecnologia, perícia criminal, balística, toxicologia, genética forense, inteligência artificial aplicada a vestígios e gestão de riscos de desastres.
No I Encontro Paranaense de Ciências Forenses, coordenado pela professora Caroline Da Ros Montes D'Oca, da UFPR — que também coordena o NAPI Segurança Pública & Ciências Forenses da Fundação Araucária —, treze pesquisas desenvolvidas na UFPR, na UNICENTRO e na UEPG trataram de temas como identificação presuntiva de cocaína com apoio de inteligência artificial, perfil químico de ecstasy apreendido no Paraná, detecção de bebidas adulteradas no contexto da crise do metanol e cadeia de custódia de vestígios digitais em blockchain, com atenção à compatibilização com a LGPD.
E o Seminário de Pesquisa do FICP, coordenado por Sávio Glória Pontes, reuniu seis trabalhos em dois eixos: policiamento baseado em evidências — com estudos sobre vieses algorítmicos em reconhecimento facial, governança da informação e prova digital — e saúde mental.
Os números da edição
| Indicador | Resultado |
| Participantes inscritos | 1.046 |
| Unidades da federação representadas | 21 |
| Países representados | 4 |
| Cidades brasileiras representadas | 89 |
| Municípios paranaenses representados | 49 |
| Participantes de forças de segurança do Paraná | 367 |
| Participantes com pós-graduação | 593 (57%) |
| Mestres e doutores | 181 |
| Palestrantes, mediadores, comentaristas e instrutores | 56 |
| Trabalhos científicos apresentados | 300 |
Além do Brasil, o Fórum recebeu inscritos dos Estados Unidos, do Uruguai e de Angola. Dentro do Paraná, 327 participantes vieram de fora de Curitiba, distribuídos por 48 municípios — de Foz do Iguaçu a Paranaguá, de Francisco Beltrão a Umuarama.
Um espaço de encontro
Há um resultado que nenhuma tabela mede bem, e que talvez seja o mais duradouro. Ao longo de dois dias, um perito criminal do interior do Paraná conversou com uma diretora de investigações de uma farmacêutica global; um residente técnico da Polícia Penal apresentou seu TCC a um coronel da Polícia Militar de outro estado; um estudante de graduação assistiu à conferência de um diretor de centro de pesquisa norte-americano e, no intervalo, tirou dúvidas com ele no corredor.
É isso que o FICP se propõe a ser: um ponto de encontro em que setor público e setor privado, academia e operação, pesquisa e prática param de se olhar à distância. Nos estandes do espaço expositivo, empresas de tecnologia e defesa apresentaram soluções a quem efetivamente as utiliza. Nas mesas, o Ministério Público, o Judiciário, as universidades e as polícias sentaram lado a lado. No hall, trezentos trabalhos ficaram expostos para quem quisesse ler, perguntar, discordar.
Fazer ciência, produzir conhecimento, apresentar inovações e enfrentar desafios reais — esses são os quatro movimentos que sustentam as Ciências Policiais como campo. O FICP existe para que eles aconteçam no mesmo lugar, ao mesmo tempo, entre pessoas que raramente têm a chance de se encontrar.
O que fica
A edição paranaense consolidou uma trajetória. Do Rio de Janeiro para Salvador, de Salvador para Curitiba, o Fórum Internacional de Ciências Policiais foi ampliando alcance geográfico, densidade científica e diversidade institucional. Nesta terceira edição, alcançou 21 unidades da federação, integrou-se organicamente a um programa universitário de pós-graduação e triplicou o volume de produção científica apresentada.
O Instituto Arrecife agradece à UNESPAR, à SETI, à SESP e ao Governo do Estado do Paraná; à FUNESPAR e à N Engenharia, parceiras estratégicas; às instituições apoiadoras — ADEPOL-PR, ABIMDE, NAPI Segurança Pública & Ciências Forenses, NISP, Pro Meal, UEPG, UFPR e UNIOESTE; e, sobretudo, a cada um dos 1.046 participantes que fizeram do auditório da UNESPAR, por dois dias, a capital brasileira das Ciências Policiais.
O trabalho continua. Encerramos esta edição com a projeção do próximo encontro: o IV Fórum Internacional de Ciências Policiais – FICP Balneário Camboriú 2027, que será realizado nos dias 30 de setembro e 1º de outubro de 2027, reafirmando o compromisso do Instituto Arrecife com o fortalecimento das Ciências Policiais, das Ciências Forenses e da Segurança Pública Baseada em Evidências. Nos vemos na próxima edição.







